Resiliência é o processo de se adaptar a eventos negativos inesperados, como ameaças, traumas e tragédias, se recuperando de forma rápida sem perder o equilíbrio e o foco. Também envolve o processo de tomada de decisões para superar as adversidades.

Perder um emprego, terminar um relacionamento, a morte de um familiar. Todos estes eventos podem ser extremamente traumáticos, mas algumas pessoas conseguem se recuperar de forma fácil e seguir em frente. Como elas fazem isso?

São pessoas com alta resiliência, ou seja, elas conseguem moldar suas vidas de acordo com as circunstâncias para prosseguir.

Resiliência é uma mistura de força e flexibilidade. Uma pessoa resiliente se dobra, mas jamais se quebra.

Diferente do que você pode imaginar, as pessoas não nascem resilientes, elas se tornam. Portanto, resiliência é algo que se adquire. Mas como se tornar resiliente?

Os golpes da vida ensinam as pessoas como serem mais corajosas e fortes.

Sabe um cara que manja pra caramba de resiliência porque apanhou demais? Rocky Balboa! Sim, Rocky Balboa.

Veja este discurso dele para seu filho no último filme da franquia:

Peraí que rolou um cisco no olho aqui…

Retomando, Rocky Balboa apanhou tanto da vida a ponto de se tornar um especialista em resiliência. Ele compreendeu que os golpes fazem parte da jornada.

Mas um aprendizado como este não acontece da noite para o dia. Eventos traumáticos levam tempo para serem digeridos e processados.

Em cada etapa desse processo é preciso que a mente esteja aberta para compreender os acontecimentos e não se deixar afetar por eles por um período maior do que o necessário.

O que é resiliência?

Em meados da década de 60 a resiliência era um conceito restrito à física que a definia como a “capacidade dos corpos de voltar à sua forma original após terem sofrido uma deformação ou choque”.

Porém, nas últimas décadas, ele veio se aproximando da psicologia para tomar a forma que conhecemos hoje: a capacidade de ser flexível para se superar.

Como eu disse acima, existem pessoas que desenvolvem resiliência, mas isso não significa que elas sejam sempre resilientes.

Elas podem se adaptar bem às mudanças em uma área de suas vidas e serem incapazes de aplicar a flexibilidade em outras.

Por exemplo, algumas pessoas podem ser extremamente resilientes no trabalho.

Quando o chefe a muda de uma mesa grande e espaçosa para outra menor, ela simplesmente entende que aquilo é necessário e não se abala emocionalmente por causa disso nem liga desesperado para sua namorada ou mãe.

Se ela está incomodada com a situação, começa a pensar em meios para resolvê-la.

Pode ser trabalhando com mais afinco para ter o seu trabalho reconhecido ou mesmo buscando um trabalho que lhe valorize mais – para saber como ter o trabalho que você merece, veja empregabilidade.

Porém esta pessoa pode não mostrar a mesma resiliência para enfrentar um divórcio, se entregando a tristeza, as lamúrias até e cair em depressão.

Algumas situações nos pegam de surpresa e surpresa só é surpresa porque ninguém nunca espera uma. Assim, cada pessoa reage de uma forma diferente a um golpe súbito, podendo ser mais reativo ou complacente com o choque.

Só que receber um choque é como pular uma onda. Existem várias formas de se atravessar uma onda. Você pode pegar um jacaré a favor dela, furá-la mergulhando por baixo ou correr para o raso para evitá-la.

Mas a pior escolha com certeza é ficar parado, resistindo de peito aberto, esperando ela te atingir em cheio para te aplicar um caldo.

A aceitação da adversidade acontece da mesma forma.

Resiliência e rabanetes

resiliencia no trabalho

Em 1996, Roy Baumeister, um dos principais nomes da psicologia social na atualidade, fez um estudo com 67 alunos na Case Western Reserve University.

Ele as levou para uma sala cheia de cookies de chocolate recém saídos do forno exalando aquele cheiro gostoso.

Em seguida, permitiu que aqueles que não conseguissem resistir comessem os biscoitos.

Para o outro grupo foi servido rabanetes e é claro que eles não ficaram nada satisfeitos com a iguaria.

Em seguida, ambos os grupos foram convidados para resolver problemas de raciocínio lógico.

E o resultado mostrou que as pessoas que tinham comido rabanetes se dedicaram por muito menos tempo do que os que comeram os deliciosos bolinhos de chocolate.

A conclusão foi que o grupo que comeu os rabanetes gastou a sua força de vontade resistindo aos cookies de chocolate.

Quando chegou a hora de resolver os problemas, eles não queriam mais se envolver naquela tarefa complicada e torturante, pois já estavam cansados.

Após analisar esses resultados, Baumeister concluiu que a força de vontade – uma das dimensões da resiliência – não é um traço da personalidade, uma virtude ou habilidade.

Na verdade, ela se parece mais com um músculo que, quando utilizado, fica fatigado e precisa de tempo para recuperar suas reservas de energia.

Portanto, assim como músculos, nossa capacidade de resiliência pode ser fortalecida e ampliada.

Resiliência é combustível

Em outro estudo da Universidade de Stanford, alunos também foram divididos em dois grupos.

O primeiro acreditava que a força de vontade era finita enquanto o outro acreditava no contrário. Cada um deles recebeu duas tarefas mentais desgastantes, uma após a outra.

O resultado foi que o grupo que acreditava na força de vontade finita fez apenas metade das tarefas em comparação ao grupo que acreditava na força de vontade como algo inesgotável.

O fato de acreditar que a força de vontade é um recurso inesgotável fez a resiliência deste grupo ser maior.

Por último, um outro experimento realizado na Faculdade de Psicologia da Universidade Bond, na Austrália, comprovou a capacidade de expansão da resiliência.

Novamente os pesquisadores separaram os participantes em dois grupos: um de controle, ao qual não foi dado nenhum tipo de instrução, e outro no qual os participantes realizaram exercícios de autocontrole por duas semanas.

Após testados, os resultados mostraram que o grupo que passou pela série de exercícios teve um aumento de pontuação na Escala de Resiliência e na Escala Breve de Autocontrole.

Outro fator positivo foi que os números da Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse também diminuíram neste grupo.

Os fatores da resiliência humana

fatores da resiliência em humanosAlgumas fatores contribuem para que uma pessoa se torne resiliente. E, diferente do que você imagina, não são situações de aspereza. De acordo com o documento “The Road to Resilience“, desenvolvido pela American Psychological Association em parceria com o Discovery Health Channel, cinco fatores compõem a resiliência.

São eles:

1. Bons relacionamentos

Estudos mostram que a construção de relacionamentos sólidos colabora para resiliência pessoal. Isso porque pessoas com relacionamentos fortes acreditam possuir maior amparo para enfrentar situações adversas.

O fato de ter pessoas ao seu lado que desejam o seu crescimento verdadeiramente e o incentivam ajuda para que a resiliência se fortaleça.

Há outros fatores que ajudam uma pessoa a ser mais resilientes. Veja abaixo:

2. Capacidade de fazer planos realistas

Planos realistas demandam esforço e disciplina na dose certa, diferentes de metas exorbitantes, que demandam picos de esforço (lembra da história do músculo?), geram ansiedade e frustração.

3. Autoestima

A autoestima é um fator de extrema importância em nossas vidas. Sem ela, a resiliência vai por água abaixo.

No exemplo do funcionário que saiu de uma mesa grande para uma apertada, o primeiro pensamento é: “sou péssimo no que faço e por isso me mandaram para cá”.

Uma pessoa com boa autoestima pode questionar este pensamento e se propor: “Talvez eles pretendem contratar mais pessoas e, por isso, precisam de mais espaço”.

4. Comunicação para resolução de problemas

Pessoas resilientes costumam ser comunicativas e fazem das palavras um meio para resolver conflitos. Elas conseguem ser muito eficazes na solução de problemas, não importa o local que estejam.

5. Inteligência emocional

A resiliência está diretamente ligada à capacidade para gerenciar emoções e impulsos. Uma vez que você toma conhecimento das suas emoções, passa a identificar os gatilhos da ansiedade, raiva ou impulsos, tornando-se hábil para desarmá-los.

Agora que você já aprendeu que a resiliência pode ser desenvolvida, está na hora de arregaçar as mangas para se fortalecer!

Como ser resiliente

Agora que você já aprendeu tudo sobre a resiliência, seguem dez dicas para você se tornar uma pessoa resiliente, também de acordo com a American Psychological Association. Veja:

1. Tenha bons relacionamentos

Ter boas relações com as pessoas próximas, como amigos e familiares, o ajudará a se tornar uma pessoa mais resiliente. Aceite a ajuda e o apoio que eles podem oferecer quando for necessário.

Outro tipo de relacionamento que pode ajudar é com grupos que têm como prioridade ajudar pessoas necessitadas ou mesmo animais em risco. Sentimento de compaixão e colaboração são como fermento para a resiliência dentro de uma pessoa.

2. Crises são superáveis

Muitas vezes nos desesperamos em momentos de crise. Achamos que aquilo nunca vai passar e que o sofrimento será eterno, mas é preciso olhar esse tipo de situação de outro modo.

Primeiro aceite que situações de estresse sempre acontecerão. Isso faz parte da vida e não há como fugir delas.

Mas você pode escolher analisá-las por outro ângulo, pensando mais no futuro e não apenas no presente. Uma visão de longo prazo faz com que você acredite que as coisas irão melhorar, e, de forma geral, elas sempre melhoram.

3. Aceite a mudança

A mudança é uma constante frequente e recorrente. Para que pudéssemos nascer e respirar, foi necessária uma mudança: sair da barriga da nossa mãe e vir para um ambiente que, a princípio, nos pareceu ruim. Mas esta é a regra.

Mudanças fazem parte e são necessárias para sobrevivência. No final das contas, nós nos adaptamos como já descreveu Darwin.

4. Vá em direção aos objetivos

É como dizem: se você não sabe para onde quer ir, qualquer lugar serve. Portanto, se você quer se tornar uma pessoa mais resiliente, é preciso determinar um objetivo e seguir em direção a ele.

Para isso, trace metas realistas que realmente possam ser cumpridas. Para isso, divida grandes metas em etapas menores. Pergunte-se: o que posso fazer hoje para chegar mais perto do meu objetivo?

Trace um cronograma e tenha disciplina para segui-lo.

5. Tome ações decisivas

Apenas desejar que os problemas desapareçam não trará nenhuma consequência positiva. Aliás, você se sentirá frustrado, pois eles permanecerão e, quando não resolvidos da forma adequada, podem se tornar maiores.

Portanto seja decisivo nas suas ações. Trace um plano de ação e cumpra-o, atuando em situações adversas e resolvendo o problema até o máximo que conseguir.

6. Busque autoconhecimento

Quando nos conhecemos se torna mais fácil gerenciar as situações de estresse. Por isso, agarre oportunidades nas quais você possa se conhecer melhor. Pode ser uma viagem, um lugar diferente com os amigos, terapia, uma palestra, um livro, um curso, meditação, um novo desafio etc.

7. Cultive uma visão positiva de si

Desenvolva a sua autoconfiança e a sua capacidade de resolver conflitos. Passe a olhar mais para as suas qualidades. Olhe para trás e veja tudo o que você conquistou até hoje. Isso tem muito valor.

8. Mantenha as coisas em perspectiva

Evite tornar o evento mais doloroso do que já é tornando o cenário catastrófico. Dessa forma, fica muito mais fácil enfrentar a situação. Tente manter um olhar mais abrangente, uma visão mais ampla sobre os acontecimentos e mantenha uma perspectiva no longo prazo.

9. Seja otimista

Quando algo ruim acontecer, tente manter uma perspectiva esperançosa. Pense em como aquela situação, que agora parece ruim, pode ser um acontecimento que venha a melhorar a sua vida no longo prazo. Tenha sempre uma perspectiva otimista.

10. Cuide de você

Cuide da sua mente e do seu corpo. É necessário prestar mais atenção às suas necessidades e também aos seus sentimentos. Pratique exercício físico, faça terapia, meditação e outras atividades que podem ajudá-lo a manter a sua saúde mental e física.

Aumentar a resiliência faz parte da jornada de desenvolvimento do ser humano e, como cada pessoa é um ser único, cada pessoa terá ferramentas próprias para isso. Por isso, identifique o que é melhor para você e pratique.

Aprenda com o passado

Concentrar-se em experiências passadas pode ajudá-lo a aprender sobre quais estratégias te ajudaram a superar obstáculos.

Ao responder às seguintes perguntas sobre você e suas reações a eventos desafiadores, você irá descobrir como conseguiu atravessar situações difíceis em sua vida de maneira eficaz.

Veja:

  • Que tipo de eventos foram mais estressantes para mim?
  • Como esses eventos me afetaram?
  • Acho útil pensar em pessoas importantes quando estou aflito?
  • Quem eu procurei para me apoiar no trabalho em uma experiência traumática ou estressante?
  • O que aprendi sobre mim mesmo e sobre minhas interações com os outros durante os estas experiências?
  • Eu já ajudei alguém a passar por uma experiência semelhante?
  • Consegui superar obstáculos? Como eles me ajudaram a me fazer sentir mais confiante sobre o futuro?

Exemplos de resiliência

Como você viu, a resiliência é algo que deve fazer parte da sua vida, mas é preciso colocar algumas atitudes em prática para que ela se desenvolva.

Ver as coisas por outra perspectiva é uma das ferramentas mais poderosas para ajudar você a criar seu futuro ideal.

Por exemplo: meu objetivo é tornar este blog em meu trabalho. Pode ser que isso leve um ou dez anos, mas eu ficarei feliz quando este objetivo for alcançado.

Veja agora alguns exemplos de histórias de resiliência que tinham tudo para serem verdadeiros fracassos mas se tornaram enormes sucessos:

a história de resiliência do fundador do KFC

1. Frango frito do Kentucky

Antes de vender a receita que o tornou milionário aos 62 anos, Harland David Sanders, criador do KFC, ouviu 1.009 vezes não. Na 1.010ª tentativa, ele recebeu um sim. Hoje seus combos de frango frito são consumidos por milhões de pessoas em todo o mundo.

2. Steve Jobs foi expulso da Apple

Em 1985, Steve Jobs foi posto pra escanteio pelo conselho da empresa que fundou com Steve Wozniak. E daí em diante a Apple produziu bons computadores que não caíram nas graças dos consumidores. Até perto de um pedido de falência a Apple passou em 1997. Enquanto isso, Jobs fazia sucesso com a Pixar. Em 2001, ele voltou para a Apple, lançou os novos Macs, o iPod, o iPhone, o iPad e transformou a Apple na empresa mais valiosa do mundo. Steve Jobs nunca ficou em sua zona de conforto e o seu legado levou a maçã a se tornar a primeira empresa com valor de mercado de 1 trilhão de dólares.

3. Pássaros raivosos e resilientes

Quando a Relude foi criada em 2003, era apenas mais uma pequena startup como qualquer outra que fazia jogos para celular. Foi difícil para eles durante os primeiros seis anos. Eles lançaram mais de 50 jogos diferentes e nenhum emplacou. Em 2009, quando já se chamava Rovio, a startup lançou seu 52º game com pássaros raivosos voadores. E Angry Birds se tornou uma mania que gerou US$ 300 milhões em faturamento em 2017.

Viu como os momentos de fracasso fazem parte da nossa trajetória? A diferença está em lidamos com a situação.

Como diz o autor e futurista Jamais Cascio: “Resiliência é sobre superar o inesperado. O objetivo da resiliência é prosperar”.

Boa sorte!

Publicado por Vinicius Aguiari

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